Muitos têm sido os comentários elogiosos acerca das matérias e reportagens publicadas na revista Terceira Civilização. Como os leitores da Terceira já devem estar familiarizados, essa revista complementa as matérias publicadas pelo Brasil Seikyo, na medida em que é possível publicar nela artigos e ensaios maiores, os quais não seriam adequados ao formato de um jornal.
Este é o caso da série Diálogo sobre a Religião Humanística, escrita por Daisaku Ikeda e que tem sido alvo dos principais elogios à revista. Na edição de julho, por exemplo, o diálogo analisa uma das cartas de Nitiren Daishonin, “Sobre atingir o estado de Buda nesta existência”, escrita em 1255 e endereçada a Toki Jonin, e no qual o presidente Ikeda faz interessantes considerações sobre o que é ser e tornar-se um buda, ressaltando em especial que uma das qualidades de um buda é sua inabalável determinação de realizar contínuos esforços.
Inicialmente o presidente Ikeda define buda como “aquele que desperta para a verdade mística que sempre existiu inerente em todos os seres vivos” e que, portanto, “isso significa extrair o ilimitado poder da Lei Mística inerente em nossa vida e estabelecer uma condição de vida de felicidade absoluta e indestrutível caracterizada pelas quatro virtudes da eternidade, felicidade, verdadeira identidade e pureza. A chave se encontra na fé inabalável na Lei Mística.”
De uma perspectiva histórica, o diálogo também lembra o despertar de Sakyamuni para essa verdade, vindo ele posteriormente a ser considerado o primeiro buda, ou simplesmente o “Buda”. O presidente Ikeda comenta: “O ponto primordial do budismo reside no despertar de Sakyamuni para a Lei em sua vida. Após um profundo exame interior, sentado em posição de meditação sob a árvore bodhi, Sakyamuni percebeu a Lei (Darma) de modo vívido.
“A palavra sânscrita buddha significa ‘Aquele que despertou [para a verdade]’. Embora o termo tenha sido amplamente empregado pelas várias escolas da época, posteriormente passou a ser usado exclusivamente em referência a Sakyamuni. A palavra buddha significa também ‘florescer’. Uma pessoa que faz com que a nobreza de caráter floresça magnificamente e produz os frutos da boa sorte e do benefício em profusão é um buda. Essa pessoa manifesta o benefício da Lei, seu caráter brilha e sua vida transborda de benefícios.”
No entanto, despertar-se para essa natureza de buda não é algo fácil e imediato. É preciso um contínuo esforço, jamais perder a esperança e basear todos os atos na Lei Mística. Como diz o presidente Ikeda:
“O buda é alguém que considera sinceramente o brado do nobre espírito e que, conduzido por essa voz interior, desafia todas as dificuldades e se empenha continuamente para realizar os sublimes ideais no curso de uma existência, transmitindo esperança e coragem a todos. Nitiren Daishonin era, de fato, a benevolência em pessoa. (...)
“Em vista disso, nós que dizemos ser discípulos de Daishonin, não importando se somos pobres, incultos, de classe social baixa, ou por piores que sejam as circunstâncias em que nos encontremos, devemos recitar Daimoku de manhã e à noite com a decisão de chegar ainda que à milionésima parte da benevolência de Daishonin. Isso significa empenharmo-nos na fé, suprindo diariamente nosso ser de Daimoku — a própria vida do Buda — gravando-o em nosso coração e permeando nossa vida com ele, o nosso objetivo é transformar cada uma de nossas ações em atos de benevolência.”
E ainda, de forma mais incisiva:
“Precisamos quebrar a concha do ‘eu’ menor e focalizar nosso ‘pensamento eterno’ nas profundezas de nossa vida. Esse é o significado de ter fé na Lei Mística.
“Por fim, chegamos ao significado de ‘despertar’. Precisamos despertar para o fato de que somos a Lei Mística. Precisamos ter a consciência de que nossa vida deve basear-se na Lei Mística pelas três existências do passado, presente e futuro.
“O presidente Toda também disse: “
’Nossa existência como mortais comuns é o meio místico e secreto, a verdade de que somos budas. O Gohonzon também está consagrado em nosso coração. Em outras palavras, a essência do Budismo de Nitiren Daishonin reside na convicção de que o Gohonzon consagrado em nosso altar budista é idêntico à nossa própria vida.’
“Passamos por uma sucessão de sofrimentos e somos assolados por inúmeras dificuldades. Essa é a realidade da vida. Mas todos nós possuímos a força para enfrentar e vencer solenemente esses obstáculos. A questão é se acreditamos que somos realmente capazes de manifestar essa força. Essa é a chave para a vitória.”
Tudo compete a nós
Em essência, o budismo foca sua preocupação fundamental na compreensão da própria vida e, de certa forma, retorna à vida em si para explicar todo o Universo ao redor. Essa é uma característica interessante e que encontra similar no pensamento clássico desenvolvido pelos gregos na antigüidade que afirmavam, por exemplo, que “o homem é a medida de todas as coisas.”
Nitiren retornou ao budismo em sua origem ao também afirmar que a verdade — a Lei Mística — encontra-se em cada um dos seres humanos indiscriminadamente, sejam eles homens, mulheres, leigos ou religiosos. Nesse sentido, é importante lembrar que, após o falecimento de Sakyamuni, várias escolas budistas passaram a pregar que compreender a dimensão humana em sua plenitude era possível apenas aos monges e sacerdotes.
No mesmo diálogo, o presidente Ikeda ainda conclui afirmando que a mudança do ser humano pode mudar todo o Universo ao seu redor. Diz ele: “É o princípio fundamental de que, quando nós mudamos, o mundo muda, e que conduz aos conceitos de ‘revolução humana’ e de ‘estabelecer o ensino correto para a paz da nação’. Tudo compete a nós. Não podemos culpar os outros. Tudo retorna a nós e não aos outros. Se ainda não compreendemos isso, não estamos praticando e Lei Mística.”
Embora pareça uma imensa responsabilidade saber que tudo compete a nós — e por isso se justifica que todo esforço é necessário —, por outro lado é reconfortante saber que nosso destino está inteiramente em nossas mãos e que, assim, eu serei feliz e alcançarei a iluminação se eu quiser e empreender esforços para isso. Em conclusão, pode-se dizer que, do ponto de vista budista, não há histórias com finais tristes. Ainda bem...
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