O que é o Nam-myoho-rengue-kyo?

 A curiosidade faz parte do processo de aprendizado das pessoas para lidarem com as circunstâncias. Quem nunca se deparou com a conhecida situação de uma criança perguntando o porquê disso, o porquê daquilo? Desde cedo aprendemos a procurar pela causa dos fenômenos a fim de entendê-los melhor. Esse exercício básico do desenvolvimento humano se intensifica quando estudamos e entendemos que nossos esforços se somam aos de toda a humanidade na busca pela razão das coisas como chave para direcionar o próprio futuro. Aprendizado, consciência e sabedoria são elementos fundamentais para que as pessoas tomem as rédeas da própria existência.



O budismo também teve origem com um “porquê”. Nesse caso, representado pela jornada de Sakyamuni em busca de respostas para o sofrimento humano. A fim de direcionar o entendimento sobre a compreensão da vida atingida pelo Buda, denominada iluminação, seu ensinamento é constituído por diversos princípios, dentre os quais, a relação de causalidade entre os fenômenos ou Lei de Causa e Efeito.

Sabemos, pelo estudo das ciências, que a relação entre causa e efeito permeia todos os fenômenos. Tudo tem uma causa e produz um efeito, que se torna a causa para um novo efeito. O Buda compreendeu esse ponto há mais de dois mil e quinhentos anos. Entretanto, diferentemente do conceito de causalidade adotado nas ciências naturais ou sociais, o princípio budista de causa e efeito considera em primeiro lugar a vida de cada pessoa.

O ser humano cria causas por meio de pensamentos, palavras e ações. Para cada causa que criamos, um efeito é registrado simultaneamente nas profundezas de nossa vida, e seus efeitos são manifestados quando encontramos as circunstâncias adequadas. O conjunto das causas, positivas e negativas, acumuladas em nossa vida é denominado carma.

Rengue, do termo Nam-myoho-rengue-kyo, literalmente significa “flor de lótus”. O lótus floresce e produz as sementes ao mesmo tempo, representando assim a simultaneidade de causa e efeito, que por sua vez é uma expressão da Lei Mística. O mais elevado ensino de Sakyamuni foi o Sutra de Lótus.

De forma geral, as pessoas percebem a causalidade como um processo normal da natureza, que se tornou a base para os modernos métodos de estudo científico. Existe a noção de que tudo na vida acontece numa série contínua de causas e efeitos inter-relacionados. Tendemos a considerar essas várias causas e efeitos em termos lineares como uma interminável cadeia de acontecimentos. Mas, de acordo com o budismo, a realidade da Lei de Causa e Efeito é muito mais profunda e complexa.

O budismo ensina que causas e efeitos são, em essência, simultâneos. No momento em que uma causa é criada, um efeito é registrado como uma semente plantada nas profundezas da vida. Embora um efeito é “plantado” no mesmo instante em que a causa é criada, ele pode não se manifestar instantaneamente. O efeito somente é manifestado quando as circunstâncias externas forem apropriadas. Suponhamos que uma semente de carvalho seja jogada ao solo, se enraíze e, após várias décadas, se torne um frondoso carvalho. Embora o efeito de se tornar uma árvore já estivesse contido na própria semente (causa), ele só pôde se manifestar após vários anos recebendo chuva, luz solar e nutrientes. Ou, usando-se um exemplo negativo, uma pessoa que consuma alimentos com alta taxa de colesterol durante muito tempo. Somente após esse tempo é que o efeito desse hábito irá se manifestar na forma de arteriosclerose e doenças cardíacas. As pessoas criam inúmeras causas todos os dias e cada uma delas gera um efeito, mas a manifestação desse efeito ocorre somente no momento em que as circunstâncias forem propícias.

Por outro lado, a causa e o efeito simultâneos significam essencialmente que o futuro pode ser determinado pelas causas presentes. Portanto, a Lei de Causa e Efeito também é o princípio da responsabilidade pessoal pelo próprio destino.

Como as profundezas da vida não dependem do carma acumulado como conseqüência das ações passadas, é possível criar a verdadeira felicidade independentemente do carma. Isso também é representado por outra qualidade do lótus, que cresce e floresce num lago lamacento porém fica livre de qualquer mancha, o que simboliza o surgimento do estado de Buda na vida de um mortal comum. A mais profunda natureza da vida permanece pura apesar das más causas que podem ter sido cometidas. Rengue significa também revelar a natureza mais fundamental da realidade da vida.

O budismo ensina o conceito das Nove Consciências. De acordo com ele, as cinco primeiras consciências são representadas pelos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. A sexta consciência integra as percepções dos cinco sentidos e faz julgamentos a respeito do mundo exterior. Todos os seres vivos com sistema nervoso central possuem a sexta consciência. A sétima consciência, denominada Mano em sânscrito, é representada pelo poder do pensamento e da meditação. A oitava consciência (Alaya, que significa repositório) é onde se registram as causas cometidas pela pessoa. Todas as ações e experiências da vida captadas pelas primeiras sete consciências ficam acumuladas como carma nessa consciência Alaya, que exerce, ao mesmo tempo, influência sobre as funções da sétima consciência.

A nona consciência, a base de todas as funções espirituais, é chamada de consciência Amala, que significa puro ou sem mácula. Enquanto a consciência Alaya contém impurezas cármicas, a consciência Amala encontra-se nas profundezas da vida e permanece pura, livre de todas as manchas originadas das ações cometidas pela pessoa em existências anteriores e na atual. Nitiren Daishonin identificou a nona consciência como o Nam-myoho-rengue-kyo, a natureza fundamental do Buda que se estende desde o infinito passado até o infinito futuro.

Em outras palavras, independentemente dos sofrimentos pelos quais se está passando ou das adversidades que se enfrente, tudo é fruto do próprio carma e sempre é possível transformá-lo positivamente por meio da manifestação do estado de Buda. A determinação de uma pessoa no presente determinará o futuro, ou o efeito pelo qual ela está se empenhando. A determinação de uma pessoa é forte o bastante para mudar seu destino? O poder da determinação opera nos níveis conscientes da psiquê humana, ao passo que o carma existe nos profundos níveis inconscientes. A humanidade necessita alterar o ritmo da própria vida, vencendo a força do carma, e a chave para isso é o Nam-myoho-rengue-kyo. Ciente dessa poderosa chave da inesgotável e inerente força vital dos seres humanos, as pessoas podem adquirir a confiança para fazer causas que as libertem completamente da influência de seu carma negativo. Com essa chave, resta extrair a energia vital do Nam-myoho-rengue-kyo das profundezas da própria vida. Isso é possível com uma firme e sincera recitação de Daimoku ao Gohonzon, a incorporação do Nam-myoho-rengue-kyo.

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