O sorriso espontâneo
Esta foi a primeira reação de Nilda Mota Carvalho ao ouvir a recitação do Daimoku:
Ao ouvir pela primeira vez o Daimoku, com certeza fiz uma causa em minha vida, pois tive uma crise de riso. Não entendia o significado daquela palavra, os membros presentes no local recitavam com uma força que eu sentia mais vontade ainda de rir. E naquele momento, o riso era totalmente impróprio. Estávamos no velório de uma sobrinha que havia falecido tragicamente. Meu irmão e minha cunhada tinham-se convertido ao Budismo de Nitiren Daishonin, mas não haviam comentado nada conosco. Foi um choque. Lembro-me de trocar olhares com Neusa sem entendermos nada. Aquilo nos chamou a atenção”, conta Nilda, irmã de Neusa.
Quando minha família se mudou para a casa onde moramos atualmente, eu implicava com uma vizinha. Ela não havia feito nada de errado para mim. Era uma rixa mesmo. Mas, um dia, após uma crise nervosa, acabei indo na direção daquela senhora que me acolheu, levou-me para sua casa e conversamos muito. Ela perguntou se eu gostaria de aprender uma oração budista para transformar nossa situação financeira. Na época, estávamos reformando nossa casa e não tínhamos dinheiro para pagar o pedreiro e isso gerou um desentendimento familiar, eu aceitei e pedi a ela que me ensinasse. Foi nesse momento que eu ouvi pela segunda vez o Nam-myoho-rengue-kyo. No primeiro momento não me recordei mas, tentando pronunciá-lo, logo veio-me à mente a cena do velório da minha sobrinha. Tive uma sensação estranha. Comecei a questionar: se a oração era tão poderosa como minha vizinha falava, por que meu irmão e minha cunhada haviam abandonado a prática? A benevolência da minha vizinha foi grande, pois ela e seu marido explicaram-me tudo e aos poucos iniciei a prática. Conforme orava, a situação ia se agravando. Parecia que quanto mais eu orava, mais a crise se intensificava. Mas persisti. Na segunda etapa dessa crise meu marido e meus filhos começaram a debochar da minha prática. Diziam que eu estava atraindo aquela situação com a oração. Quando sentia que estava desanimando, lá vinha minha vizinha me incentivando para que eu não desistisse. Dizia que aquela situação iria se transformar. Comecei a ler as orientações do presidente Ikeda e aprendi também sobre a importância de propagar os ensinamentos budistas. Reavaliei meu comportamento perante meu marido e filhos e percebi que em muitas situações estava errada. Foi então que as brigas começaram a amenizar. Apesar do deboche ainda persisti. Mesmo assim continuei em minha prática e desafiei. Comecei a freqüentar as reuniões da comunidade e as dificuldades se manifestaram. Toda vez que estava pronta para sair, sempre acontecia algo que me impedia de não ir a atividade.
Um dia, cheguei à casa da minha mãe e observei o semblante abatido da minha irmã. Estava assustada, amarga e desiludida da vida. Fui até ela e ensinei-lhe o Daimoku , dizendo para ter muita fé e orar para transformar aquela tristeza em sua vida. E foi assim que tudo começou a mudar.
Neusa: o desafio pela vida
Em 1983 prestei um concurso para trabalhar no Hospital do Servidor Público, mas tive de esperar quatro anos para ser chamada para trabalhar. Em 1992 decidi morar com um rapaz que namorava há tempo. Foram dois anos de muitas felicidades. Mas, por ironia do destino, ele deu uma carona para uns amigos que não via há muito tempo, e esses rapazes estavam envolvidos com más companhias. Houve uma confusão e meu marido acabou sendo assassinado. Foi um choque muito grande. Fiquei muito insegura.
Convidei um sobrinho e minha mãe para morar comigo, pois me sentia muito sozinha. Não conseguia viver mais na mesma casa. Vivia traumatizada e com muito medo que acontecesse algo com minha mãe. Freqüentava outras religiões, buscando ter esperança e soluções, mas só conseguia arrumar mais dívidas e confusões. Começou a faltar dinheiro e a desarmonia aumentava. Fui me tornando fria, escolhia as pessoas para ter amizade e não confiava em ninguém. No trabalho era muito encrenqueira, a ponto de ser convidada a ser transferida de setor.
Um dia conversando com minha irmã Nilda, ela me convidou para fazer uma oração budista. Foi em um sábado, no dia 6 de novembro, que conheci esse maravilhoso Budismo de Nitiren Daishonin pela benevolência da minha irmã que assistia meu sofrimento. Ela me explicou o que era o Daimoku e que eu deveria ter muita fé. Fiquei meio indecisa, mas acabei aceitando porque estava com muitos problemas. Tive muita boa sorte. Comecei desafiando três horas diárias. Quando terminamos a recitação do Nam-myoho-rengue-kyo por três horas, pude conversar com os dirigentes e me senti muito bem.
Comecei a participar das atividades, fazia muito Daimoku, e sempre era convidada para fazer parte das apresentações e programações, as quais aceitava prontamente. Fui comprovando vários benefícios e grandes transformações em minha vida. A casa em que eu morava era pequena, por isso orava para conseguir uma casa maior e consagrar o Gohonzon. Em meio a esse desafio, minha casa foi assaltada e levaram tudo que eu possuía. Mesmo assim não desanimei e continuei orando. Na semana seguinte mudei de casa e ganhei tudo o que perdi. Foram presentes dos meus irmãos e da minha encarregada, a mesma que havia sugerido minha transferência do setor.
Em agosto de 2001 objetivei consagrar o Gohonzon em minha casa até o final do ano. Foi nesse momento que passei por uma das maiores comprovações dos benefícios da prática budista.
Em uma madrugada de setembro, estava indo trabalhar acompanhada por um irmão, quando sofremos um grave acidente de trânsito. Era muito cedo e não havia ninguém para nos socorrer. Por muita sorte os policiais presenciaram o acidente pela câmera que monitorava os cruzamentos e foram nos socorrer. Meu irmão teve ferimentos leves, mais eu tive um politraumatismo (traumatismos múltiplos) fraturei a laringe e algumas costelas. O resgate chegou no momento exato. Se demorasse um minuto a mais eu não sobreviveria. Assim que chegaram fizeram uma traqueostomia de urgência para que eu respirasse. Fiquei internada no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo por sete dias. Meu estado era gravíssimo. Minha família e os colegas de trabalho conseguiram me transferir para o Hospital do Servidor Público, meu local de trabalho, onde permaneci internada por mais de três meses. Não podia falar, nem engolir a saliva. Permaneci por muito tempo com uma sonda no nariz para me alimentar. Após várias cirurgias, foi realizado uma gastrotomia, que é a introdução de uma sonda direto no estômago para receber alimentação. Nessa ocasião cheguei a pesar 45 quilos. A equipe médica que me assistia fazia tudo para que eu voltasse a falar, engolir e comer. Em agosto fiz minha primeira cirurgia corretiva de laringe, na qual colocaram um molde na minha garganta. Após 28 dias, passei por outra cirurgia para a retirada do molde e recomecei a falar, só que em um tom muito baixo. No início de dezembro de 2001 voltei para casa, mas com uma sonda na barriga, sem ter a informação de quando iria retirá-la. Teria de fazer uma opção entre falar e comer e respirar por um buraquinho ao lado da garganta ou falar e respirar e continuar com sonda na barriga para sempre. Fiquei chocada, não sabia o que escolher. Intensifiquei meu Daimoku. Recebi muitas visitas de membros e dirigentes que me incentivavam a não desistir e ter a certeza que venceria. O objetivo de consagrar o Gohonzon no final do ano não foi possível, mas no dia 13 de janeiro de 2003 consegui meu objetivo e o consagrei em meu lar, juntamente com meu irmão mais novo, Natalino, que se mudou para casa para cuidar da minha mãe enquanto estava hospitalizada e também cuidar de mim quando retornei.
Começamos a praticar juntos. Eu, meu irmão e minha mãe agradecemos por estar viva. Orávamos para vencer as dificuldades para recuperação de minha saúde e ter condição física digna novamente. Desafiei não passar por mais cirurgias e voltar a me alimentar por vias normais. No final do mês, voltei ao médico para realizar exames. Foi então que tive a primeira grande surpresa, pois minha médica pediu para aguardarmos mais trinta dias, pois a equipe ainda estava avaliando o meu caso. Tive mais tempo para intensificar minha prática. Passado o tempo, voltei ao médico e eles perceberam que minha laringe começara a reagir e por isso não iriam mais fazer a cirurgia, mas teria que fazer um acompanhamento mensal. Os médicos não entendiam a minha recuperação, mas em meu coração eu sabia que tinha decidido mudar meu destino e que a força para isso estava dentro de mim. Hoje já realizei a cirurgia plástica, e tenho a voz um pouco rouca, mas consigo respirar e engolir normalmente. Tenho muitos outros benefícios a conquistar, mas sinto que o principal já conquistei! Assim, nenhum sofrimento hoje é capaz de desviar-me do caminho da felicidade. Tudo isso só foi possível graças a benevolência de minha irmã que ensinou-me o budismo.
O reflexo em casa
Observando a determinação de Neusa, Natalino também começou a praticar o budismo. Após mais de vinte anos entregue aos vícios, começou a perceber o mal que estava fazendo a si. Reuniu a família e pediu ajuda para se libertar do álcool e das drogas. Natalino explicou que mesmo após fazer horas de Daimoku, era dominado pelo desejo e saía rumo aos bares. Um dia, observando seu rosto no espelho, refletiu sobre suas atitudes e desafiou vencer o vício. Com o apoio da família ficou internado por mais de cinco meses em uma clínica de recuperação. Dialogou com os demais pacientes, e começou a falar sobre a filosofia budista para outros internos. “Sei que é um desafio diário, mas luto para não desanimar e me render aos meus desejos. A primeira atitude quando sentamos e oramos ao Gohonzon é saber assumir nossas fraquezas e orar para ter força para dominar a mente e manter sua decisão. Minha irmã Neusa sobreviveu por sua decisão. Minha irmã Nilda, hoje tem uma vida mais tranqüila. É muito prazeroso ver minha família unida”, relata Natalino.
Nilda, a irmã que fez Chakubuku em Neusa, está prestes a consagrar o Gohonzon em sua residência. Seu marido e filhos já aceitam a sua prática, pois comprovaram a prova real na família.
“Não há oração sem resposta”, essa é a frase que acompanha Neusa diariamente para fortalecer sua prática diária, em gratidão a sua vida, a de seus familiares e para os novos desafios que ainda estão por vir nesta existência.
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